Críticas

The Girlfriend Experience – 1ª Temporada (Crítica)

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Senhoras e senhores, a verdadeira personificação do exibicionismo, a elegância do egoísmo e uma retratação fiel dos desejos sexuais.

Se eu tivesse que resumir esta primeira temporada em apenas uma frase seria: “Uma Obra de Arte”. Algo que eu anteriormente dizia da série Hannibal, que assim como esta, tem seu estilo próprio de narrativa, sendo diferente de qualquer outra coisa, completamente única.

Única, outra palavra que se encaixa perfeitamente nesta série, um verdadeiro drama com uma duração de uma comédia, que não se importa em agradar o telespectador, não se importa em justificar as motivações da protagonista e muito menos liga que narrativa (que inicialmente é lenta) incomode quem assiste.

A trama é tão egoísta como a protagonista e igualmente complexa, o que se contrapõe as cenas sem trilha sonora e fotografia escura que tornariam qualquer momento simples e pacifico.

A realidade da história é representada com perfeição nos quesitos técnicos, esta – assim como Outlander – é a provação que a STARZ tem a mesma capacidade de grandes emissoras como a Showtime, e quem sabe daqui pra frente, até HBO

Tudo aquilo que já conhecíamos sobre a Christine – que é pouca coisa – em vez de ser completamente desconstruído, e nos apresentar uma versão mais emotiva ou humana, é desenvolvida lentamente e com a devida fidelidade apresentada desde o princípio.

Toda a relação de poder que ela tem com o sexo, a necessidade de estar no controle e a preciosidade que ela tem com sua própria imagem, é algo que está na alma da personagem. É como se tudo que ela fizesse, independente do que for, está diretamente ligado com a sua sexualidade, a independência e o próprio medo que ela tem de um ex-cliente obcecado, são reflexos de quem é Christine Reade.

Obstinada pelo controle e bem resolvida sobre quem é, ela se aceita e se o mundo não, ela não se importa. Apesar de a série lidar com o preconceito, isto é pouco relevante para o desenvolvimento da personagem, as experiências dela surgem dos clientes e dela mesma, ao conhecer bem o suficiente o corpo (se é que você me entende).

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A atuação de Riley Keough é tão contida, que você não sabe o que esperar da própria personagem, e mesmo da atriz, por não saber se ela de fato está atuando bem, o que certamente foi a intenção dos produtores, em causar a confusão do telespectador ao mesmo tempo em que o deixa curioso.

Mas em momento nenhum, a trama pede para ser amada, ela te convida e se você não aceitar, não faz diferença, tem lembra alguém? Pois é, apesar da série não ser inteiramente no ponto de vista da personagem principal, até os detalhes mais discretos da tela se remetem à ela.

Isso porque não fazemos ideia do que se passa em sua cabeça, então teoricamente seriamos pessoas invisíveis que passeiam nos confins da vida pessoal e intima de Christine. Mas ao mesmo tempo não somos íntimos o suficiente dela – em Mr. Robot, por exemplo, temos acesso aos pensamentos de Elliot, já aqui isto não acontece – isto só é a grande prova que a intimidade muitas vezes não só se remete a algo sexual.

O que a longo prazo pode se tornar um problema para Christine, afinal, como já vimos muitos clientes pagam para ser íntimos dela como uma namorada. Gerando um conflito de interesses, o dela de poder e controle versos a necessidade de muitos homens ao ter uma mulher como uma ‘propriedade’, algo aparentemente resolvido por ela neste final de temporada. Mas será que ela ainda será perseguida pelo cliente obsessivo?

O que eu mais gostei em The Girlfriend Experience é a reconstrução de representação do sexo, que quase sempre é retratado como caricatura na cultura pop onde é exaltado com excesso de beleza ou exageros, – como o soft-porn da série nacional, O Negócio e o sexo explícito de Game of Thrones, claro que ainda tem diversos exemplos disso – e as boas qualidades do ato em si.

A tragédia do machismo e do ‘falso controle’ sempre é apresentado em qualquer trama que envolve sexo, porém muitas obras não se propuseram a debater em níveis mais reais o que difere o prazer real dos homens e a ilusão imposta pela suas próprias cabeças, transcendendo os valores sociais e importância do que dos sentimentos das mulheres. Já aqui, a visão é da Christine e apesar do egoísmo alheio, o dela está em primeiro plano, e ai a coisa vai ficando interessante.

Dito isso, Christine Reade seria a representação do prazer em sua forma mais clara e simples. Afinal, o prazer é egoísta, ao invés de uma imagem sempre bela e sedutora, nos é apresentado uma figura fria, com a cara mal-humorada e com um comportamento inconsequente e oportunista, criando uma relação de amor e ódio (ou quase isso) com o telespectador e brincando com as inseguranças em uma frieza única com cenas de sexo NADA gratuitas, o que é raro.

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Para Christine, pouco importa os valores morais da sociedade, algo que quase sempre é um problema para a família de qualquer indivíduo e com a dela não é diferente.

Isto é claramente o motivo do distanciamento familiar e social da personagem, além de ser o estopim para o narcisismo e o desinteresse por suas próprias emoções. Talvez por isso eu tenha gostado tanto da série, eu me identifico facilmente com ela.

Seja como for, é inegável a perfeição na maestria dos quesitos técnicos, juntamente com o excelente roteiro e direção da série, que se torna mais um exemplo de que quanto menos gente trabalhando, melhor a produção – Assim como a primeira temporada de True DetectiveLodge Kerrigan e Amy Seimetz são os criadores, diretores e roteiristas da série, que é baseada no filme (de mesmo nome) de Steven Soderbergh que também é produtor executivo da versão televisiva.

The Girlfriend Experience também é mais um exemplo de uma trama que funciona melhor na TV do que no cinema, além de ser uma obra de arte e eu já considerar a melhor estreia de 2016 (até agora).

  • Victor Lucas

    odiei a série, detestei mesmo, apesar de ter atuações fodas e planos sequência sensacionais, n tem história nenhuma, o último episódio é literalmente um filler. ta mais pra uma série passa-tempo do que algo pra ser levado a sério

    • Acho que é uma questão de gosto, assim como qualquer outra coisa. Apesar de eu ter gostado muito reconheço que não é uma série para todo mundo, exatamente por isso nunca a recomendo pra ninguém quando me perguntam sobre uma série boa para assistir. Espero poder mostrar a minha interpretação sobre ela em um futuro próximo ;D